Esta secção está dividida em várias partes. Consulte a parte mais abaixo para perguntas e respostas específicas.
Primeiras referências a doulas na Modernidade
Em todas as imagens antigas que representam um parto podemos observar como era comum a presença de uma ou mais mulheres, facilitando ou apoiando o nascimento de um bebé (e de uma mãe). Eram normalmente mulheres mais experientes que já haviam tido outras crianças ou assistido a mais partos. Era comum este hábito de as mulheres se juntarem para este evento e todas tinham uma função. Este padrão era repetido nascimento após nascimento. Algumas mulheres tornavam-se verdadeiras peritas neste apoio, dando origem às primeiras parteiras, visando o trabalho uma a um, ou seja, a parteira com a sua sabedoria milenar, considerando a fisiologia natural do nascimento e apenas com aquela mulher naquele momento. Outras mulheres davam outro tipo de apoio, normalmente mais emocional e prático - estas foram as primeiras doulas.
Doula é uma palavra grega que significa mulher que serve e era designativa das mulheres que cuidavam de outras, especialmente grávidas, mulheres lactantes ou com crianças recém-nascidas. As doulas acompanhavam o crescimento destas crianças nas suas várias etapas de desenvolvimento, estando muitas vezes presentes, como uma figura materna de confiança, ao lado dos filhos da mulher a quem serviam. Esta palavra foi usada pela primeira vez no ocidente pela escritora americana Dana Raphael no seu livro “The Thender Gift” onde é feita a referência a mulheres que facilitam o apoio emocional e físico a outras durante o trabalho de parto e parto.
Mas tarde, uma equipa de pediatras, Marshall Klaus, Phillys Klaus e John Kennel (falecido em Agosto de 2013), usaram esta designação para descrever as mulheres que davam apoio físico em hospitais na Guatemala, onde efetuaram um estudo sobre os benefícios deste apoio.
Evidências Científicas
Seis trabalhos randomizados e controlados confirmam os benefícios do trabalho das doulas. Destes seis estudos, dois foram realizados na Guatemala (um com 136 mulheres e outro com 465 ). Os restantes estudos foram realizados no Texas (com 416 parturientes), em Johanesburg, África do Sul (com 192 parturientes), na Finlândia e no Canadá. Todas as participantes do estudo eram primíparas, saudáveis e tinham tido gravidezes sem qualquer problema médico. Foram selecionadas para participar no estudo aquando da admissão no hospital, apresentando-se já em trabalho de parto.
As doulas da Guatemala foram treinadas num curso de três semanas, mas as da África do Sul eram mulheres simples e sem treino. Todas foram orientadas a permanecer constantemente ao lado das grávidas, utilizando verbalizações e toque e tendo como foco três fatores primários: conforto, confiança e reforço das capacidades. Todas as doulas deste estudo haviam tido a experiência prévia de trabalhos de parto normais e partos vaginais.
Os resultados do estudo foram impressionantes!
Quando se tem uma doula há:
Além disso, outros resultados positivos foram acrescentados, a saber:
A Biblioteca Cochrane de Medicina Baseada em Evidências deixa muito clara a importância das doulas para a melhoria dos resultados obstétricos, demonstrando que a assistência oferecida pelas doulas é sustentada por evidências claras e inquestionáveis:
“Levando-se em consideração os claros benefícios e a ausência de riscos associados com o apoio durante o parto, todos os esforços devem ser feitos para assegurar que qualquer mulher em trabalho de parto receba suporte contínuo, não apenas daqueles próximos a ela, mas também de profissionais treinados. Esse suporte deve incluir presença contínua, conforto pelo toque e encorajamento”.
Todos conhecemos a equipa hospitalar que atende partos: um médico, uma ou mais enfermeiras, um anestesista e outros auxiliares. Neste ambiente centrado na tecnologia e no controlo das máquinas, onde e quem cuida do bem-estar físico e emocional da mulher? Perdeu-se o sagrado deste evento e cada vez mais se impõe a presença de uma acompanhante profissional que facilite todo o apoio emocional e físico à mulher que dá à luz.
O parto é um evento social, afetivo, físico, sexual e emocional, e no ambiente desconhecido e mecanizado dos grandes hospitais assiste-se a um incremento de medo, ansiedade e dor, que estão profundamente relacionados (um leva ao outro e aumentam-se reciprocamente). Surge assim a necessidade de considerar o apoio emocional e afetivo à grávida em trabalho de parto. Os estudos de Klaus e Kennell comprovam exatamente isso: não há risco algum em ter um acompanhante de parto. Antes pelo contrário, os autores verificaram que são muitos os benefícios deste acompanhamento, tais como a redução da duração do trabalho de parto, menor perceção da dor, maior satisfação das mulheres, menos taxas de cesariana, etc.
O papel da doula
A doula é alguém que conhece e compreende a fisiologia do parto, que respeita e tenta assegurar as necessidades básicas da pessoa que está em trabalho de parto e, acima de tudo, respeita as opções da gestante/casal, apoiando nas decisões informadas e conscientes.
Durante a gravidez
Acompanha a gestante durante a gestação através de apoio emocional, esclarecimento de dúvidas e procura de informação. Ajuda também a planear e desmistificar o trabalho de parto e puerpério (pós-parto).
Durante o Trabalho de Parto
No trabalho de parto, a doula está ao lado da mãe criando uma esfera de proteção e confiança que facilita a progressão do trabalho de parto. A doula poderá propor medidas de conforto como duche ou banho, toque de conforto, relaxamento ou respiração profunda. A doula apoia também o pai/acompanhante e mostra como estxs poderão ser úteis e mais participativos, se for esse o seu desejo.
Quando o parto decorre no hospital, a doula é a única profissional que garante assistência personalizada e contínua à parturiente, funcionando também como um elo de ligação entre a equipa de atendimento e o casal. A doula explica os termos médicos e os procedimentos hospitalares visando sempre proteger a experiência emocional do parto para o casal. A doula não executa atos médicos nem perturba a equipa médica.
No Pós-Parto ou Puerpério
A doula também presta serviços no pós-parto, nomeadamente no que respeita aos cuidados a ter com o recém-nascido, apoio na amamentação, adaptação da família a um novo elemento ou realização de pequenas tarefas domésticas (caso a doula disponibilize este serviço).
O que a doula não faz:
A doula não efectua qualquer procedimento médico, e portanto, não substitui qualquer dos profissionais tradicionalmente envolvidos na assistência ao parto. A doula não deve perturbar o ambiente domiciliar nem hospitalar por razões pessoais ou outras. A equipa precisa de sentir que a doula é um elo de ligação e uma mais-ajuda ao processo e não uma perturbação ou entrave.
Que mais benefícios traz uma doula ?
A presença da doula produz um clima de intimidade, carinho, afeto e, acima de tudo, segurança.
As mães relatam uma experiência de parto mais satisfatória e gratificante, sentem-se mais fortalecidas, apresentam níveis mais baixos de ansiedade e níveis mais elevados de atenção e recetividade para com o seu bebé. O risco de depressão pós-parto também é diminuído. Tudo isto favorece o vínculo precoce entre ambos.
Além dos benefícios para mãe existem outros benefícios importantes:
Para o bebé
Os benefícios para o bebé também são evidentes. O risco de complicações e de internamento prolongado é diminuído, favorece-se o sucesso da amamentação e o reforço do vínculo mãe (pais) / bebé.
Para a equipa hospitalar (médicos e enfermeiros)
No que concerne à equipa médica, a doula contribui também para a diminuição da sua ansiedade, da pressa, dos receios e de todas as intervenções médicas daí decorrentes.
A presença da doula ajuda a grávida a perceber qual a melhor altura para se dirigir ao hospital/maternidade, evitando que essa deslocação se realize demasiado cedo (processo que pode desencadear a trilogia stress/tensão/medo).
A entrada no trabalho de parto franco (ativo) e a chegada ao ponto de não retorno (a partir da meia dilatação) asseguram e firmam a confiança da parturiente e da equipa médica. Optar por ter uma doula é, muito provavelmente, a decisão mais importante que uma mulher pode tomar durante a gravidez para tentar viver um parto humanizado.
Outras perguntas:
- A Doula faz o parto?
Nem pensar! Acreditamos que quem faz o parto é a mãe e o bebé, com a ajuda preciosa da parteira (enfermeira/o especialista em saúde materna e obstétrica - EESMO) que é responsável pela segurança da mulher e bebé. A doula presta apoio emocional e informativo durante a gravidez e no parto. Neste a doula usa algumas técnicas que podem ajudar a mãe a viver de forma mais positiva o seu parto (métodos não farmacológicos de alívio da dor, por exemplo) mas nunca fará um ato médico, nem diagnósticos ou interferir no trabalho dos profissionais de saúde.
- Vamos ter um bebé em casa, basta ter uma doula?
Não, de forma alguma. Primeiro precisa de saber se é uma boa candidata a um parto em casa (gravidez de baixo risco, por exemplo), ter uma doula e procurar então uma parteira ou parteiro. Aqui pode encontrar alguns. Deve dirigir-se ao site da Ordem dos Enfermeiros e verificar se a parteira que procura está inscrita nesta Ordem. Se não estiver, faça reclamação e procure outra que esteja inscrita. Apenas o enfermeiro especialista em saúde materna e obstétrica está habilitado para acompanhar partos em casa e apenas este é responsável pela segurança da mãe e bebé. Isso não é responsabilidade da doula.
-As Doulas são normalmente mulheres que acompanham a grávida durante a gestação, dando apoio emocional, esclarecendo dúvidas e facilitando informação. Mas a Doula desempenha o seu papel durante todos os processos da gravidez?
- O papel da doula é esse exatamente, apoiar informativamente baseando-se em evidências científicas e apoiando emocionalmente, para que durante a gravidez, parto e pós-parto a mulher ou casal possam ver as suas dúvidas, medos ou outras questões, esclarecidas e aprofundadas. Mesmo antes da gravidez, a doula tem um papel ativo no esclarecimento de dúvidas e no desenvolvimento pessoal de cada mulher que se prepara para a maternidade.
-É possível as doulas escolherem com que grávidas querem trabalhar? Ou têm que aceitar todas as grávidas que a contactam?
- Acreditamos que cada mulher tem uma doula só para si, ou várias, e acreditamos também que cada mulher tem o direito de escolher, isso inclui as doulas. As doulas precisam sentir porque desejam acompanhar aquela mulher e porque não desejam, estando sempre em contacto com as suas emoções mais profundas que dizem tanto de si mesma. Mas tendo o direito de escolha. Sendo livres para acompanhar ou não alguma mulher. Mas seja porque motivo for, a doula deverá sempre oferecer outros contactos de outras doulas ou incentivar a mãe/casal a procurar outras doulas.
-Quando pode uma mulher contactar uma Doula? As doulas trabalham só com a mulher ou também com o pai do bebé?
- A mulher pode contactar uma doula quando quiser. O ideal seria antes de engravidar pois nessa altura podemos ir já preparando o terreno para outros assuntos e ajustando tudo. Claro que por vezes também somos contactadas pelos pais ou outras pessoas que estão com a mulher/mãe. Mas não é tão comum. E sim, trabalhamos também com o pai do bebé, se assim ambos o desejarem, ou como disse antes, com quem estiver a acompanhar a mulher grávida.
-Onde podemos encontrar uma Doula? Como sabemos que a doula que escolhemos é competente para o trabalho que está a desenvolver?
- Podem encontrar uma doula no site www.redeportuguesadoulas.com ou no Facebook em Rede Portuguesa de Doulas. É muito simples basta clicar no mapa de Portugal. Todas as doulas da Rede têm formação de mais de 100 horas, com trabalho teórico, prático e emocional, sendo este o único curso de doulas em Portugal que oferece formação com esta carga horária. Se tiverem alguma dúvida, questão ou reclamação, existe no site um espaço para isso. Todas as doulas seguem um Código de Ética. Peçam para o ler e verifiquem se tudo assim se passa com a vossa doula.
-Que conselhos ou diretrizes devemos seguir para escolher uma doula?
Seguir o coração. Depois disso ler o Código de Conduta da Rede Portuguesa de Doulas e voltar a seguir o coração. A escolha da doula precisa vir desse espaço no peito onde reside o amor. A empatia. A confiança. Se não sentir nada disto com a sua doula, mude de doula.
-Uma doula pode ser útil quando um casal está a tentar engravidar e não consegue?
- Claro que sim, faz todo o sentido. Muitas mulheres nos procuram ainda antes de engravidar porque desejam estar informadas da melhor maneira para que a sua gravidez antes de mais aconteça e que aconteça de forma saudável e segura. Com toda a informação baseada em evidências mas também com trabalho emocional.
-Quando acontece uma gravidez não planeada pelo casal e a mãe fica em estado de choque, a doula pode ajudar a mulher ultrapassar este estado e aceitar a sua gravidez?
- Muitas gravidezes não são planeadas mas desejadas e mesmo assim é um turbilhão de emoções para a mulher. Por um lado quer-se, por outro agora não. Também há medo, os medos de não ser capaz, de perder o bebé, de não querer agora uma responsabilidade tão grande, ao mesmo tempo um desejo enorme de estar grávida! Parece loucura, mas não. A doula acompanha cada etapa desta fase, recordando a naturalidade deste processo e em caso de necessidade, encaminhando para profissionais de saúde quando a doula percebe que alguma situação a transcende.
-As mulheres grávidas assistem habitualmente a consultas de pré-natal, as doulas acompanham-nas?
- Se esse for o desejo da mulher/casal, claro que sim. Mas queremos mulheres autónomas e responsáveis, por isso antes da consulta vamos apoiar a mulher na compreensão de termos técnicos, opções, escolhas informadas para que ela se sinta informada e não perdida nessas consultas, como por vezes acontece. A doula não é uma bengala, não protege a mulher, pelo contrário, mune-a de ferramentas para que ela aprenda a proteger-se.
-As doulas acompanham a mulher no parto que elas escolherem, seja ele no hospital ou em casa?
- Claro que sim, é inclusivamente no parto hospitalar onde os profissionais de saúde não dispõem de tempo para se dedicarem em exclusivo a uma mulher em trabalho de parto, que o papel da doula é ainda mais importante, e com benefícios cientificamente comprovados. Mesmo em caso de cesariana, a Doula facilita informação e apoio, durante e após, de forma a encontrar as melhores soluções para cada um/a.
-O tipo de parto que a mulher escolhe é sugerido pela doula ou ela não interfere de nenhuma forma nessa escolha?
- A doula não faz escolhas pela mulher/casal. A doula não dá opiniões, não faz atos médicos, não interfere com a equipa médica e as escolhas que faz são unicamente para a sua vida. Cada pessoa é responsável pelas suas escolhas e a doula ajuda a criar consciência para que as escolhas do casal sejam informadas, mas não influencia em nada estas escolhas. Isso seria retirar o poder da mulher e todes queremos é devolver esse poder pessoal e protagonismo. Para que a responsabilidade das escolhas da mulher/casal sejam deles e não da doula, ou do médico, ou mesmo da sogra.
-Quais são as considerações especiais que a mulher deve ter em conta em relação ao parto?
Que é um evento psicológico, emocional, físico e sexual da sua Vida mais íntima e privada. Que acontece principalmente na sua cabeça e que é através desse evento que a vida do seu bebé vai surgir. Que traz medos, receios. Que assusta mas que ela consegue. Já o conseguimos há muitos milhares de anos. E ela também vai conseguir e isso vai mudar a Vida dela, de todos à sua volta. Mas precisa responsabilizar-se, ler, sentir, ir mais fundo.
-Qualquer mulher pode optar por ter um parto hospitalar ou um parto em casa?
O parto em casa é tão ou mais seguro que o parto hospitalar segundo os estudos científicos mais recentes desde que acompanhado por profissionais de saúde competentes (enfermeiros especialistas em saúde materna e obstétrica ou parteiras /os). Mas exige algumas considerações. A mulher precisa ser saudável, com um bebé de termo saudável também. Gravidezes de risco devem ser atendidas no hospital. De resto, se a mulher se sentir segura em casa o parto pode ocorrer lá. Mas se apenas se sentir segura no hospital mesmo sendo uma gravidez de baixo risco, é no hospital que deve ter o seu bebé. Porque cada mulher deve apenas ter o seu bebé no local onde se sentir mais segura! Já fez o seu Plano de Parto?
-As doulas trabalham sozinhas durante o parto? Estão acompanhadas por pessoal médico sanitário?
As doulas costumam trabalhar com outra doula de back-up, salvaguardando assim alguma eventualidade que as impeça de estarem presentes no parto e garantindo que a grávida terá sempre uma doula. Durante o parto a doula trabalha para a sua cliente ou casal cliente. No hospital deve respeitar a equipa e não prejudicar o trabalho dos profissionais, mas sendo a guardiã do espaço sagrado da grávida, protegendo-a de estímulos exteriores que podem alterar a boa libertação de hormonas essenciais ao nascimento. No parto em casa é da responsabilidade da grávida/casal procurar um profissional de saúde (parteira ou parteiro) que os acompanhe e com quem a doula trabalha da mesma forma, respeitando o trabalho do enfermeiro especialista.
- Ouvimos falar das doulas que fazem partos. É verdade?
Se ouviu falar em pessoas assim deve saber que isso é ilegal e deverá escrever uma reclamação à Ordem dos Enfermeiros para que estes indiquem essas mulheres ao Ministério Público, pois essas práticas são proibidas. Apenas o enfermeiro especialista em saúde materna e obstétrica pode garantir a segurança da mãe e bebé. Uma doula deverá ter um Código de Ética e nesse código deve expressar claramente que esta não efetua atos médicos.
Primeiras referências a doulas na Modernidade
Em todas as imagens antigas que representam um parto podemos observar como era comum a presença de uma ou mais mulheres, facilitando ou apoiando o nascimento de um bebé (e de uma mãe). Eram normalmente mulheres mais experientes que já haviam tido outras crianças ou assistido a mais partos. Era comum este hábito de as mulheres se juntarem para este evento e todas tinham uma função. Este padrão era repetido nascimento após nascimento. Algumas mulheres tornavam-se verdadeiras peritas neste apoio, dando origem às primeiras parteiras, visando o trabalho uma a um, ou seja, a parteira com a sua sabedoria milenar, considerando a fisiologia natural do nascimento e apenas com aquela mulher naquele momento. Outras mulheres davam outro tipo de apoio, normalmente mais emocional e prático - estas foram as primeiras doulas.
Doula é uma palavra grega que significa mulher que serve e era designativa das mulheres que cuidavam de outras, especialmente grávidas, mulheres lactantes ou com crianças recém-nascidas. As doulas acompanhavam o crescimento destas crianças nas suas várias etapas de desenvolvimento, estando muitas vezes presentes, como uma figura materna de confiança, ao lado dos filhos da mulher a quem serviam. Esta palavra foi usada pela primeira vez no ocidente pela escritora americana Dana Raphael no seu livro “The Thender Gift” onde é feita a referência a mulheres que facilitam o apoio emocional e físico a outras durante o trabalho de parto e parto.
Mas tarde, uma equipa de pediatras, Marshall Klaus, Phillys Klaus e John Kennel (falecido em Agosto de 2013), usaram esta designação para descrever as mulheres que davam apoio físico em hospitais na Guatemala, onde efetuaram um estudo sobre os benefícios deste apoio.
Evidências Científicas
Seis trabalhos randomizados e controlados confirmam os benefícios do trabalho das doulas. Destes seis estudos, dois foram realizados na Guatemala (um com 136 mulheres e outro com 465 ). Os restantes estudos foram realizados no Texas (com 416 parturientes), em Johanesburg, África do Sul (com 192 parturientes), na Finlândia e no Canadá. Todas as participantes do estudo eram primíparas, saudáveis e tinham tido gravidezes sem qualquer problema médico. Foram selecionadas para participar no estudo aquando da admissão no hospital, apresentando-se já em trabalho de parto.
As doulas da Guatemala foram treinadas num curso de três semanas, mas as da África do Sul eram mulheres simples e sem treino. Todas foram orientadas a permanecer constantemente ao lado das grávidas, utilizando verbalizações e toque e tendo como foco três fatores primários: conforto, confiança e reforço das capacidades. Todas as doulas deste estudo haviam tido a experiência prévia de trabalhos de parto normais e partos vaginais.
Os resultados do estudo foram impressionantes!
Quando se tem uma doula há:
- 50% de redução nas cesarianas;
- 25% de redução na duração do trabalho de parto;
- 30% de redução no uso do fórceps;
- 40% de redução no uso de ocitocina;
- 60% de redução no uso de analgesias epidurais;
- 30% de redução no uso de medicação para dor.
Além disso, outros resultados positivos foram acrescentados, a saber:
- Aumento nas taxas de amamentação;
- Diminuição dos índices de Depressão Pós-Parto;
- Aumento da satisfação materna;
- Reforço da interação mãe-bebé.
A Biblioteca Cochrane de Medicina Baseada em Evidências deixa muito clara a importância das doulas para a melhoria dos resultados obstétricos, demonstrando que a assistência oferecida pelas doulas é sustentada por evidências claras e inquestionáveis:
“Levando-se em consideração os claros benefícios e a ausência de riscos associados com o apoio durante o parto, todos os esforços devem ser feitos para assegurar que qualquer mulher em trabalho de parto receba suporte contínuo, não apenas daqueles próximos a ela, mas também de profissionais treinados. Esse suporte deve incluir presença contínua, conforto pelo toque e encorajamento”.
Todos conhecemos a equipa hospitalar que atende partos: um médico, uma ou mais enfermeiras, um anestesista e outros auxiliares. Neste ambiente centrado na tecnologia e no controlo das máquinas, onde e quem cuida do bem-estar físico e emocional da mulher? Perdeu-se o sagrado deste evento e cada vez mais se impõe a presença de uma acompanhante profissional que facilite todo o apoio emocional e físico à mulher que dá à luz.
O parto é um evento social, afetivo, físico, sexual e emocional, e no ambiente desconhecido e mecanizado dos grandes hospitais assiste-se a um incremento de medo, ansiedade e dor, que estão profundamente relacionados (um leva ao outro e aumentam-se reciprocamente). Surge assim a necessidade de considerar o apoio emocional e afetivo à grávida em trabalho de parto. Os estudos de Klaus e Kennell comprovam exatamente isso: não há risco algum em ter um acompanhante de parto. Antes pelo contrário, os autores verificaram que são muitos os benefícios deste acompanhamento, tais como a redução da duração do trabalho de parto, menor perceção da dor, maior satisfação das mulheres, menos taxas de cesariana, etc.
O papel da doula
A doula é alguém que conhece e compreende a fisiologia do parto, que respeita e tenta assegurar as necessidades básicas da pessoa que está em trabalho de parto e, acima de tudo, respeita as opções da gestante/casal, apoiando nas decisões informadas e conscientes.
Durante a gravidez
Acompanha a gestante durante a gestação através de apoio emocional, esclarecimento de dúvidas e procura de informação. Ajuda também a planear e desmistificar o trabalho de parto e puerpério (pós-parto).
Durante o Trabalho de Parto
No trabalho de parto, a doula está ao lado da mãe criando uma esfera de proteção e confiança que facilita a progressão do trabalho de parto. A doula poderá propor medidas de conforto como duche ou banho, toque de conforto, relaxamento ou respiração profunda. A doula apoia também o pai/acompanhante e mostra como estxs poderão ser úteis e mais participativos, se for esse o seu desejo.
Quando o parto decorre no hospital, a doula é a única profissional que garante assistência personalizada e contínua à parturiente, funcionando também como um elo de ligação entre a equipa de atendimento e o casal. A doula explica os termos médicos e os procedimentos hospitalares visando sempre proteger a experiência emocional do parto para o casal. A doula não executa atos médicos nem perturba a equipa médica.
No Pós-Parto ou Puerpério
A doula também presta serviços no pós-parto, nomeadamente no que respeita aos cuidados a ter com o recém-nascido, apoio na amamentação, adaptação da família a um novo elemento ou realização de pequenas tarefas domésticas (caso a doula disponibilize este serviço).
O que a doula não faz:
A doula não efectua qualquer procedimento médico, e portanto, não substitui qualquer dos profissionais tradicionalmente envolvidos na assistência ao parto. A doula não deve perturbar o ambiente domiciliar nem hospitalar por razões pessoais ou outras. A equipa precisa de sentir que a doula é um elo de ligação e uma mais-ajuda ao processo e não uma perturbação ou entrave.
Que mais benefícios traz uma doula ?
A presença da doula produz um clima de intimidade, carinho, afeto e, acima de tudo, segurança.
As mães relatam uma experiência de parto mais satisfatória e gratificante, sentem-se mais fortalecidas, apresentam níveis mais baixos de ansiedade e níveis mais elevados de atenção e recetividade para com o seu bebé. O risco de depressão pós-parto também é diminuído. Tudo isto favorece o vínculo precoce entre ambos.
Além dos benefícios para mãe existem outros benefícios importantes:
Para o bebé
Os benefícios para o bebé também são evidentes. O risco de complicações e de internamento prolongado é diminuído, favorece-se o sucesso da amamentação e o reforço do vínculo mãe (pais) / bebé.
Para a equipa hospitalar (médicos e enfermeiros)
No que concerne à equipa médica, a doula contribui também para a diminuição da sua ansiedade, da pressa, dos receios e de todas as intervenções médicas daí decorrentes.
A presença da doula ajuda a grávida a perceber qual a melhor altura para se dirigir ao hospital/maternidade, evitando que essa deslocação se realize demasiado cedo (processo que pode desencadear a trilogia stress/tensão/medo).
A entrada no trabalho de parto franco (ativo) e a chegada ao ponto de não retorno (a partir da meia dilatação) asseguram e firmam a confiança da parturiente e da equipa médica. Optar por ter uma doula é, muito provavelmente, a decisão mais importante que uma mulher pode tomar durante a gravidez para tentar viver um parto humanizado.
Outras perguntas:
- A Doula faz o parto?
Nem pensar! Acreditamos que quem faz o parto é a mãe e o bebé, com a ajuda preciosa da parteira (enfermeira/o especialista em saúde materna e obstétrica - EESMO) que é responsável pela segurança da mulher e bebé. A doula presta apoio emocional e informativo durante a gravidez e no parto. Neste a doula usa algumas técnicas que podem ajudar a mãe a viver de forma mais positiva o seu parto (métodos não farmacológicos de alívio da dor, por exemplo) mas nunca fará um ato médico, nem diagnósticos ou interferir no trabalho dos profissionais de saúde.
- Vamos ter um bebé em casa, basta ter uma doula?
Não, de forma alguma. Primeiro precisa de saber se é uma boa candidata a um parto em casa (gravidez de baixo risco, por exemplo), ter uma doula e procurar então uma parteira ou parteiro. Aqui pode encontrar alguns. Deve dirigir-se ao site da Ordem dos Enfermeiros e verificar se a parteira que procura está inscrita nesta Ordem. Se não estiver, faça reclamação e procure outra que esteja inscrita. Apenas o enfermeiro especialista em saúde materna e obstétrica está habilitado para acompanhar partos em casa e apenas este é responsável pela segurança da mãe e bebé. Isso não é responsabilidade da doula.
-As Doulas são normalmente mulheres que acompanham a grávida durante a gestação, dando apoio emocional, esclarecendo dúvidas e facilitando informação. Mas a Doula desempenha o seu papel durante todos os processos da gravidez?
- O papel da doula é esse exatamente, apoiar informativamente baseando-se em evidências científicas e apoiando emocionalmente, para que durante a gravidez, parto e pós-parto a mulher ou casal possam ver as suas dúvidas, medos ou outras questões, esclarecidas e aprofundadas. Mesmo antes da gravidez, a doula tem um papel ativo no esclarecimento de dúvidas e no desenvolvimento pessoal de cada mulher que se prepara para a maternidade.
-É possível as doulas escolherem com que grávidas querem trabalhar? Ou têm que aceitar todas as grávidas que a contactam?
- Acreditamos que cada mulher tem uma doula só para si, ou várias, e acreditamos também que cada mulher tem o direito de escolher, isso inclui as doulas. As doulas precisam sentir porque desejam acompanhar aquela mulher e porque não desejam, estando sempre em contacto com as suas emoções mais profundas que dizem tanto de si mesma. Mas tendo o direito de escolha. Sendo livres para acompanhar ou não alguma mulher. Mas seja porque motivo for, a doula deverá sempre oferecer outros contactos de outras doulas ou incentivar a mãe/casal a procurar outras doulas.
-Quando pode uma mulher contactar uma Doula? As doulas trabalham só com a mulher ou também com o pai do bebé?
- A mulher pode contactar uma doula quando quiser. O ideal seria antes de engravidar pois nessa altura podemos ir já preparando o terreno para outros assuntos e ajustando tudo. Claro que por vezes também somos contactadas pelos pais ou outras pessoas que estão com a mulher/mãe. Mas não é tão comum. E sim, trabalhamos também com o pai do bebé, se assim ambos o desejarem, ou como disse antes, com quem estiver a acompanhar a mulher grávida.
-Onde podemos encontrar uma Doula? Como sabemos que a doula que escolhemos é competente para o trabalho que está a desenvolver?
- Podem encontrar uma doula no site www.redeportuguesadoulas.com ou no Facebook em Rede Portuguesa de Doulas. É muito simples basta clicar no mapa de Portugal. Todas as doulas da Rede têm formação de mais de 100 horas, com trabalho teórico, prático e emocional, sendo este o único curso de doulas em Portugal que oferece formação com esta carga horária. Se tiverem alguma dúvida, questão ou reclamação, existe no site um espaço para isso. Todas as doulas seguem um Código de Ética. Peçam para o ler e verifiquem se tudo assim se passa com a vossa doula.
-Que conselhos ou diretrizes devemos seguir para escolher uma doula?
Seguir o coração. Depois disso ler o Código de Conduta da Rede Portuguesa de Doulas e voltar a seguir o coração. A escolha da doula precisa vir desse espaço no peito onde reside o amor. A empatia. A confiança. Se não sentir nada disto com a sua doula, mude de doula.
-Uma doula pode ser útil quando um casal está a tentar engravidar e não consegue?
- Claro que sim, faz todo o sentido. Muitas mulheres nos procuram ainda antes de engravidar porque desejam estar informadas da melhor maneira para que a sua gravidez antes de mais aconteça e que aconteça de forma saudável e segura. Com toda a informação baseada em evidências mas também com trabalho emocional.
-Quando acontece uma gravidez não planeada pelo casal e a mãe fica em estado de choque, a doula pode ajudar a mulher ultrapassar este estado e aceitar a sua gravidez?
- Muitas gravidezes não são planeadas mas desejadas e mesmo assim é um turbilhão de emoções para a mulher. Por um lado quer-se, por outro agora não. Também há medo, os medos de não ser capaz, de perder o bebé, de não querer agora uma responsabilidade tão grande, ao mesmo tempo um desejo enorme de estar grávida! Parece loucura, mas não. A doula acompanha cada etapa desta fase, recordando a naturalidade deste processo e em caso de necessidade, encaminhando para profissionais de saúde quando a doula percebe que alguma situação a transcende.
-As mulheres grávidas assistem habitualmente a consultas de pré-natal, as doulas acompanham-nas?
- Se esse for o desejo da mulher/casal, claro que sim. Mas queremos mulheres autónomas e responsáveis, por isso antes da consulta vamos apoiar a mulher na compreensão de termos técnicos, opções, escolhas informadas para que ela se sinta informada e não perdida nessas consultas, como por vezes acontece. A doula não é uma bengala, não protege a mulher, pelo contrário, mune-a de ferramentas para que ela aprenda a proteger-se.
-As doulas acompanham a mulher no parto que elas escolherem, seja ele no hospital ou em casa?
- Claro que sim, é inclusivamente no parto hospitalar onde os profissionais de saúde não dispõem de tempo para se dedicarem em exclusivo a uma mulher em trabalho de parto, que o papel da doula é ainda mais importante, e com benefícios cientificamente comprovados. Mesmo em caso de cesariana, a Doula facilita informação e apoio, durante e após, de forma a encontrar as melhores soluções para cada um/a.
-O tipo de parto que a mulher escolhe é sugerido pela doula ou ela não interfere de nenhuma forma nessa escolha?
- A doula não faz escolhas pela mulher/casal. A doula não dá opiniões, não faz atos médicos, não interfere com a equipa médica e as escolhas que faz são unicamente para a sua vida. Cada pessoa é responsável pelas suas escolhas e a doula ajuda a criar consciência para que as escolhas do casal sejam informadas, mas não influencia em nada estas escolhas. Isso seria retirar o poder da mulher e todes queremos é devolver esse poder pessoal e protagonismo. Para que a responsabilidade das escolhas da mulher/casal sejam deles e não da doula, ou do médico, ou mesmo da sogra.
-Quais são as considerações especiais que a mulher deve ter em conta em relação ao parto?
Que é um evento psicológico, emocional, físico e sexual da sua Vida mais íntima e privada. Que acontece principalmente na sua cabeça e que é através desse evento que a vida do seu bebé vai surgir. Que traz medos, receios. Que assusta mas que ela consegue. Já o conseguimos há muitos milhares de anos. E ela também vai conseguir e isso vai mudar a Vida dela, de todos à sua volta. Mas precisa responsabilizar-se, ler, sentir, ir mais fundo.
-Qualquer mulher pode optar por ter um parto hospitalar ou um parto em casa?
O parto em casa é tão ou mais seguro que o parto hospitalar segundo os estudos científicos mais recentes desde que acompanhado por profissionais de saúde competentes (enfermeiros especialistas em saúde materna e obstétrica ou parteiras /os). Mas exige algumas considerações. A mulher precisa ser saudável, com um bebé de termo saudável também. Gravidezes de risco devem ser atendidas no hospital. De resto, se a mulher se sentir segura em casa o parto pode ocorrer lá. Mas se apenas se sentir segura no hospital mesmo sendo uma gravidez de baixo risco, é no hospital que deve ter o seu bebé. Porque cada mulher deve apenas ter o seu bebé no local onde se sentir mais segura! Já fez o seu Plano de Parto?
-As doulas trabalham sozinhas durante o parto? Estão acompanhadas por pessoal médico sanitário?
As doulas costumam trabalhar com outra doula de back-up, salvaguardando assim alguma eventualidade que as impeça de estarem presentes no parto e garantindo que a grávida terá sempre uma doula. Durante o parto a doula trabalha para a sua cliente ou casal cliente. No hospital deve respeitar a equipa e não prejudicar o trabalho dos profissionais, mas sendo a guardiã do espaço sagrado da grávida, protegendo-a de estímulos exteriores que podem alterar a boa libertação de hormonas essenciais ao nascimento. No parto em casa é da responsabilidade da grávida/casal procurar um profissional de saúde (parteira ou parteiro) que os acompanhe e com quem a doula trabalha da mesma forma, respeitando o trabalho do enfermeiro especialista.
- Ouvimos falar das doulas que fazem partos. É verdade?
Se ouviu falar em pessoas assim deve saber que isso é ilegal e deverá escrever uma reclamação à Ordem dos Enfermeiros para que estes indiquem essas mulheres ao Ministério Público, pois essas práticas são proibidas. Apenas o enfermeiro especialista em saúde materna e obstétrica pode garantir a segurança da mãe e bebé. Uma doula deverá ter um Código de Ética e nesse código deve expressar claramente que esta não efetua atos médicos.